Ah, o amanhecer... Quem nunca ficou maravilhado ao presenciar esse momento lindo e ver todas as cores maravilhosas que o Sol traz quando está nascendo? E mesmo aqueles que não têm muito tempo para assistir ao espetáculo que o alvorecer oferece, todos já leram mais de um poeta rendendo elogios a esse evento mágico, viram fotografias que imortalizaram auroras de tirar o fôlego ou assistiram ao despertar do dia no cinema.
O fato é que, de acordo com J. M. Mulet, professor da Universidade Politécnica de Valencia, na Espanha, que falou com o pessoal do portal El País, tudo isso que vemos durante o amanhecer não passa de — nas palavras do docente — uma mentira.

Acertando a expressão

Segundo Mulet, para começar, em diversos idiomas, as expressões relacionadas a esse evento diário fazem referência à “saída” do Sol, ao seu “nascimento” ou à sua “subida” ao céu. No entanto, isso só faria sentido se vivêssemos em um universo como o proposto pelo modelo de Ptolomeu — no qual a Terra seria o centro de tudo, e tanto o Sol como os demais planetas viajariam ao nosso redor.
Avistamento do Sol
Contudo, nós existimos em um sistema planetário no qual há uma estrela central e todo mundo orbita em torno dela, conforme foi proposto por Copérnico em sua teoria heliocêntrica. Sendo assim, se quiséssemos ser detalhistas e até meio chatos mesmo, Mulet diz que o mais correto seria nos referirmos ao alvorecer como “avistamento do Sol” ou, ainda, como “giro da Terra”.
Mulet admite que alguém poderia argumentar que, se considerarmos a Terra como ponto de referência, para um observador, a impressão seria de que quem está se movendo é a estrela, e não o nosso planeta — o que poderia ser usado como justificativa para apoiar o uso das expressões que descrevem o amanhecer. Entretanto, algo mais que acontece durante o alvorecer que não passa de uma “miragem”: o espetáculo visual.

Viagem da luz

De acordo com Mulet, durante o amanhecer, o espetáculo que nós presenciamos é provocado por uma ilusão de ótica. Pense no que acontece quando inserimos um canudinho em um copo com água — e temos a impressão de que ele está “quebrado”. Isso se dá, como você sabe, devido à refração da luz.
Não parece "quebrado" mesmo?
O que acontece é que nós vemos a metade do canudo que se encontra submersa a partir da superfície do líquido, e a parte que se encontra exposta parece mudar de direção devido à diferença da velocidade da luz nos dois meios — água e ar. Isso faz com a luz chegue até os nossos olhos com ângulos diferentes, criando a impressão de o canudinho estar quebrado. Pois, segundo Mulet, algo parecido ocorre no amanhecer (e no entardecer também, diga-se de passagem!).
No caso do Sol, ocorre a soma de duas refrações... Primeiro, os raios de luz emitidos pelo Sol, assim que partem em direção ao espaço e abandonam a influência da gravidade exercida pela estrela, iniciam uma trajetória reta a caminho da Terra. Mas, quando eles se aproximam de nós, é a vez de a nossa gravidade exercer influência sobre eles, curvando a sua trajetória.
Combinação de refrações
Então, quando os raios solares chegam por aqui, eles também sofrem a refração assim que passam do vácuo do espaço e chegam à atmosfera, resultando em mais uma mudança em sua direção — desta vez, por conta da diferença de velocidade com a qual eles viajam nos dois meios, vácuo do espaço e atmosfera.
Portanto, o Sol que vemos nesse instante não está bem ali onde pensamos, mas sim atrás da Terra — embora faltem apenas alguns graus para ele aparecer. Em outras palavras, a posição do Sol nesse momento é apenas aparente, e não real. E ainda temos a questão das características cores que vemos no céu durante o amanhecer — que, segundo Mulet, também não passam de uma ilusão.

Pura ilusão

A luz não passa de radiação eletromagnética, e os nossos olhos são capazes de detectar um determinado espectro dela — o visível (obviamente!). Você deve se recordar de ter aprendido nas aulas de Física que cada comprimento de onda da luz corresponde a determinada cor, e que a branca corresponde à mistura de todas as cores, enquanto a preta, à ausência de todas elas.
Espectro visível
Pois, conforme explicou Mulet, em condições normais, o céu parece azul devido ao fato de a atmosfera funcionar como uma espécie de prisma e ser capaz de decompor a luz branca oriunda do Sol. Assim, os gases presentes na atmosfera absorvem e emitem principalmente as ondas mais curtas — que são as que correspondem às cores azul e violeta, daí a coloração típica do céu.
Entretanto, durante o amanhecer (ou entardecer), devido ao posicionamento da Terra em relação ao Sol, a luz solar percorre um espaço maior na atmosfera. Com isso, a absorção aumenta e acaba abrangendo outros comprimentos de onda também — restando apenas a luz residual, nas cores avermelhadas e laranja.